(Texto Escrito quando eu tinha 39 anos e um coração repleto de gratidão como ainda é hoje)

Aos 32 anos, sentada no divã, refeita de uma separação e vivendo a vida como nunca, divagava sobre relacionamentos amorosos. Separei por que não me sentia livre, e por que agora, com tanta liberdade, deveria novamente me relacionar? E fui vivendo este dilema, que eu julgava estar relacionado com as escolhas.

Ser livre significava, para mim, ser autêntica, não negociar e me priorizar em 100% dos casos. Foi realmente um tempo incrível, que eu me recordo com muita satisfação. Lembro das viagens, dos encontros, dos amigos de um único encontro, das madrugadas de balada, dos cafés da manhã de domingo acompanhada de um livrinho, das inúmeras noites cozinhando sozinha e feliz, das sessões de cinema cult, dos passeios de bicicleta, das poesias, das histórias sem fim.

O que ninguém me explicou foi que a liberdade não se discute e não se escolhe e, principalmente, não se mede.

Os dilemas revelam algo que ainda não está resolvido. Sou livre, me basto, estou bem, e justifico minhas escolhas usando a liberdade como escudo.

E quando você não sente necessidade de justificar nada? Quando tudo parece realmente ocupar o seu lugar, de verdade? Quando a viagem dá errado, você tem que ficar em casa com sua filha pequena, está cansada e não está a fim de transar, ou de sair, ou de ir no cinema, e está tudo bem?

E quando você descobre que sua vida nunca esteve tão simples, tão banal, tão limitada, sem muitas opções, sem muito movimento e sem nenhum glamour, e que você nunca se sentiu tão plena e feliz com o que você tem?

E eu percebi que é simples assim…que tudo que eu tenho hoje é o que eu quero e preciso, e me dou conta de que algo se transformou: que eu não quero saber o que vem depois. Eu estou satisfeita com a inércia dessa fase. E adoro sentar no sofá da minha casa e olhar meus quadros, observar minha filha se arrastando pela casa, ouvir o barulho da chuva, não ter a agenda lotada da semana inteira, ou ter a agenda lotada a semana inteira, dizer não com convicção, liberar espaço. Eu descobri a força e o poder do agora. Do aqui e agora.

E a liberdade? Como ela é algo bem maior do que eu imaginei…Como ela nem precisa mais ser citada e muito menos mencionada…eu estou bem comigo, com a minha família e com o universo.

Se passaram 7 anos. Estou com 39. Aquela mesma moleca que gosta de viajar, de ir ao cinema e de tomar vinho. E o que aconteceu?

Descobri que era outro sentimento que não estava tão presente assim na minha vida. Não era a liberdade que estava faltando. O que estava faltando era o amor. E para este amor comemorar, quero dançar até o sol raiar.

Um sussurro. Um chorinho.Acorda. Começa. Ritual.

Acorda. Começa. Ritual.

Mamada. Banho. Café.

Brinca. Olha. Trabalha. Choro.

Cochilo. Leitura. Opa.

Telefone. Email. Choro. Almoço.

Banho. Fralda. Choro. Opa.

Comida. Cochilo. Trabalho.

Saida. Chegada. Sorriso.

Lindo. Lindo. Lindo.

Amor.